







A Poeira Terrível
Alexandre da Cunha, Ana Cláudia Almeida, Arorá, Francisco Trêpa, Gabriel Ribeiro, Iagor Peres, Janaina Tschäpe, Lucia Koranyi, Marcelo Pacheco, Raphael Tepedino e Thomaz Rosa
curadoria Victor Gorgulho
05 de julho – 02 de agosto 2025
São Paulo
A Poeira Terrível
A manhã havia nascido em tons de cinza, chumbo, marfim e rajadas variadas de roxo, azul e laranja fluorescentes. No mínimo improvável, a paleta de cores que encobriu as primeiras horas daquela segunda-feira, a olhos nus tão ordinária e banal, na cidade de São Paulo, causou toda sorte de reações por entre os moradores da uberlópole. O termo, cunhado no início dos anos ’30 (2030, digo), passou a ser utilizado oficialmente de 2041 para frente, de modo a designar a brutal mancha urbana que a cidade-cinzeiro (piadas urbanas de então…!) acabava por repousar sobre o tecido de terra arrasada que abaixo de tanto concreto ainda teimava em existir.
2040, é importante pontuarmos, foi o ano do incontornável acidente radioativo que inacreditavelmente tornou as águas do Rio Tietê cinza-lilás, mascarando em tons poeticamente empoeirados a podridão das águas deveras alteradas daquele organismo já morto, no coração da cidade. São Paulo passava, dia sim e dia não (e, por vezes, dia sim e dia sim também), por uma gama tão ampla de alterações climáticas que, seus moradores mais fiéis, nunca dispostos a abandonar aquela urbe repleta de fumo e fumaça, já encontravam-se mais do que preparados para encarar as constantes catástrofes que circundavam e pontuavam, regularmente, a rotina da cidade.
A paisagem de todo o mundo, afinal, havia mudado consideravelmente nos idos dos anos ’40: restava um pouco de verde em florestas aqui e acolá, parte dos oceanos ainda permanecia azulada, outra parte tornara-se marrom e marfim, humanos de todos os cantos do globo viviam em estranhas casas-bolhas e outras bizarrices parecidas. Era o estado das coisas, sabíamos, e pouco se ouviam discursos arrependidos ou nostálgicos acerca das décadas anteriores. Havia formado-se, era consenso, uma espécie de sedimentação de deboche e de escárnio, por parte da raça humana, pouco ou quase nada arrependida pela forma vil com que encararam o eterno complexo civilização e natureza, homem e terra, sapiens ou bicho.
O nome “Terra”, a propósito, deixou de ser, para a comunidade científica e para a turma post-woke (post-tudo, post-o-que-restou, vá lá) o nome a designar o globo terrestre. Era comum, depois do ano de 2040, ouvir a abreviação T.A., “Terra Arrasada”, uma vez que o planeta anteriormente famoso por suas imensas e favoráveis condições para a vida estava, errr…, desmantelado. Ruína rasgada, literal, metafórica e desesperadamente concreta.
Mas nada havia nos preparado para o tal dia “D” – ou para a “manhã-flúor”, o codinome viralizado pela imprensa internacional para adereçar o estranho fenômeno ocorrido naquele dia que nem chegou a nascer, no epicentro da Gotham City brasileira, a eterna Paulicéia. Uma espessa nuvem de poeira, misto de poluição, resquícios de queimadas, partículas ínfimas de toda sorte de químicos, cinzas de mortos e de vivos, substâncias lícitas, ilícitas, partículas desconhecidas até pelos mais estudiosos geólogos e astrônomos, aglutinaram-se em direção à cidade. Não demorou uma ou duas horas, pouco menos que isso, até, para a “poeira terrível” repousar e escurecer o céu de toda a cidade.
Vasto perímetro de terra acabada, agora ameaçada pela queda do próprio céu que sobre ela se encorpava, amedrontava e, quiçá, fascinava àqueles exóticos fetichistas que aguardavam ansiosamente o fim do mundo. Sem delongas, toda sorte de matéria (viva ou não viva), lentamente iniciou um processo de deformação, transmutação e mesmo desfiguração completa de sua forma original. O céu, pouco a pouco, em sua espessa escuridão apocalíptica, anunciava a distopia e o desmoronamento de tudo. Ainda que não houvesse registros – naquele momento, ainda, evidentemente, de alterações ocorridos nos corpos humanos, refugiados em bolhas, bunkers e bares (claro!) –, tudo ao redor daqueles ainda vivos, mesmo que perplexos, indefesos, incrédulos, rapidamente iniciou nunca-dantes-vistos processos de deformação, derretimento, desfiguração. Eram também, agora, matérias morfadas, amórficas, retalhadas e viscosas, algumas excentricamente atraentes, desejantes e desejosas pelo toque humano.
Em 2041, aquele havia sido apenas mais um dia, um daqueles definitivamente inesquecíveis, claro, mas, diante da poeira terrível que encobria os olhos de quem ainda teimava em sobreviver na T.A., era também mais uma dia de noite e neblina eternas, nada distante do status quo que então reinava. Não era possível mais desempoeirar os nossos olhos e buscar enxergar o mundo, novamente, como se fosse a primeira vez.
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OBSERVAÇÃO ACERCA DO ARQUIVO ACIMA ENCONTRADO PELA EQUIPE DE ARQUEOLOGIA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO:
Relato escrito por Victor Gorgulho, datado de 2052, encontrado nos arquivos mofados da antiga Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, no ano de 2060. O manuscrito desintegrou-se naquele mesmo ano, sem que antes pudesse ser transcrito para a tela pixelada de uma máquina computacional qualquer, capaz de elevá-lo à uma das infinitas nuvens de data que hoje cobrem o céu. Ou o que restou dele.