





Quase-novembro
Ana Cláudia Almeida, Arorá, Carla Santana, Gilson Plano, Iagor Peres, Manuela Costa Lima, Marcelo Pacheco, Matheus Chiaratti, Thomaz Rosa e Wisrah C.V. da R. Celestino
curadoria André Pitol
5 de fevereiro – 02 de abril 2026
São Paulo
Quase Novembro
O arco do tempo pode ser moldado em um átimo de segundo. E, depois que esse instante – esse encontro – acontece, nos colocamos em certa medida livres para destrinchar as histórias produzidas naquele momento, assim como alongar as narrativas ali contidas. O tempo curvo que resulta dessa série de movimentos expande porções de energia para o mundo, passando de corpo a corpo até que se instaure um sentido para cada um de nós. Uma experiência de transmissão que desata o potencial de contar as histórias que vivenciamos, assim como relembrar o futuro como ele aconteceu para uns e vai acontecer para outros. A sustentação distributiva do contorno do arco transparente que permite seu acionamento como o de uma passagem de tráfego duplo, de vai e vem, sem necessariamente determinar início ou fim ou qualquer outro regramento.
Como um portal de transformação, acesso e mudança, e que oferta uma percepção de tempo amplamente presente na ordem das palavras livres, em especial nas orações condicionais que não dependem da declaração da causa de um evento antes de sua consequência. Uma percepção de tempo em que presente e futuro são simultâneos e na qual um conjunto de imagens poéticas pode ser conhecido ao mesmo tempo em que se realiza o primeiro gesto artístico.
Novembro foi e será o ponto final que deu início a este projeto curatorial da Quadra para o ano de 2026. E o tempo, essa ficção científica tão bem criada, tornou-se dispositivo de atenção e balizador criativo para o acompanhamento da produção dos dez artistas do programa da galeria. Uma espécie de negociação espiralar, que permitiu a recuperação de imagens de viés cinematográfico para a ignição curatorial aqui proposta: a atenção a trabalhos cuja elaboração e feitura oferecem possibilidades de contato com sistemas de significação e percepções temporais nas quais presente, passado e futuro tornam-se noções circulares que performam e alteram a realidade do mundo.
um meta,
um quase,
um trans.1
¹ SALOMÃO, Waly. Hélio Oiticica; Qual é o parangolé e outros escritos. Rio de Janeiro: Rocco, 2003, p. 137.
O fluxo de cada uma das dez poéticas expostas traz notícias do mais importante: de que manifestam a processualidade sensível e corpórea do mundo e se distanciam de sua transcendentalidade, e compartilham em um mesmo espaço as suas particularidades e seus devires; evidenciam, no fundo, que é sobre o quase e não sobre. Esse fluxo poético diz ainda da sensibilidade aguçada aos elementos imanentes da existência e suas possibilidades de transformação, valendo-se quase da convivência com formas, arranjos e matérias que não pertencem ao mundo não visível – invisível ou quase-material – mas que não por isso estão acima da natureza. No limite, fazem parte dela.
Quase-Novembro torna-se, pois, uma elaboração simultânea de linguagens. Nele, a lâmpada, o livro, o texto e as mariposas de Matheus Chiaratti coabitam o mesmo espaço que o pássaro, a pedra e o sol de Gilson Plano, junto também das clavículas de Ana Cláudia Almeida. The belongings de Wisrah C. V. da R. Celestino evidenciam as condições de apresentação do trabalho de arte, estabelecendo aproximações com as instruções de pintura (verde e azul), de Marcelo Pacheco. Pertences e instruções também criam conexões com Thomaz Rosa, que entre parafusos e flechas performam procissão com os estandartes e outras peças verticais de Manuela Costa Lima. Isso para não dizer de quando Iagor Peres bate um raio na areia, assim como os índices paleontológicos de Carla Santana fazem com que as algas saiam da água e o corpo seja o protagonista. Por fim, e de volta ao tempo, a pintura e a densidade de Arorá.
A negociação do quase, como uma prática que se realiza em contato com o invisível, aponta também para a experimentação e o questionamento que o próprio dispositivo cinematográfico e expográfico trazem ao conjunto de trabalhos expostos — sobretudo nas maneiras pelas quais os arranjos podem ser tensionados e nos modos como novos acordos podem ser estabelecidos ao longo do arco de tempo em que permanecerão juntos, antes de se dispersarem no mundo.
André Pitol