De olhos fechados vemos o sol

Manuela Costa Lima

texto crítico Isabella Lenzi

23 de agosto – 25 de outubro 2025

São Paulo

De olhos fechados vemos o sol

Um céu cheio de estrelas feitas com caneta bic num papel de pão
Zeca Baleiro

Não lembro exatamente quando. Foi há mais de dois anos que veio a lembrança dessa música, uma canção dos tempos de juventude. Imediatamente escrevi para ela: “Nunca tinha feito essa associação, mas esses versos são para mim uma síntese do teu trabalho”.

Em sua terceira exposição individual na Quadra, Manuela Costa Lima aproxima o cotidiano do divino. O industrial do metafísico. A matéria construída do invisível.

Arquiteta de formação, a artista paulistana constrói suas obras a partir de um olhar sensível à vida comum — ao ritmo, às matérias, tramas e cores da cidade e a todos aqueles que nela vivem —. Ao trabalho e aos pequenos rituais do dia a dia. Recolhe objetos ordinários, pré-existentes e produzidos em série e, por meio de deslocamentos mínimos, reorganiza sua função e presença. Nos últimos anos, a espiritualidade tornou-se cada vez mais central em sua produção: a origem, a luz, a oferenda, o silêncio.

Nesta exposição, a instalação principal propõe um rebatimento do céu: leva a luz e o brilho do sol ao chão. Um descendimento do divino ao mundo terrestre, que o torna visível, aqui e agora, aos olhos humanos. O trabalho parte de um sistema direto de placas fotovoltaicas, que captam a radiação solar e, sem intermediação ou armazenamento de energia, acende um conjunto de lâmpadas incandescentes no interior do espaço expositivo.

As lâmpadas são de diferentes modelos, formatos, cores e potências, e cada sistema tem um comportamento próprio, sensível às menores oscilações de energia solar. A obra funciona como uma janela zenital invertida: um espelho do céu sobre a terra. A intensidade da iluminação responde em tempo real às variações atmosféricas: o movimento de uma nuvem ou a inclinação do sol no céu são suficientes para alterar o brilho das lâmpadas — única fonte de luz do ambiente —. A maioria das lâmpadas operam em seu limite, de modo que o máximo brilho só se alcança por instantes, sob a oferta plena do sol.

O uso exclusivo de incandescentes também é fundamental: seus filamentos permitem uma ampla variação de luminosidade e, mais do que isso, essas lâmpadas não apenas brilham, também irradiam calor. São pequenos sois, frágeis e breves, que só existem enquanto a luz lá fora existe também.

O sistema demonstra o interesse da artista por elementos pré-fabricados e industriais. Em muitas de suas obras, utiliza materiais descartados, encontrados na rua ou adquiridos em lojas de construção. O Brás, bairro operário, conhecido pelos seus armazéns e mercados de roupa, onde Manuela teve estúdio por vários anos, continua tendo grande influência em sua produção.

Ao mesmo tempo, o aspecto industrial dos bulbos, roscas e filamentos contrasta com o chão de madeira e a terra onde estão apoiadas as lâmpadas, em alguns casos parcialmente enterradas. Uma terra vermelha e viva, que durante todo o período da exposição é regada para manter-se sempre úmida. A instalação lembra um altar, um espaço de contemplação, reflexão e meditação. Seu formato elíptico remete à planta de projetos icônicos da arquitetura barroca e sacra. Mas essa elipse não abraça o espectador como as igrejas romanas de Borromini ou do barroco mineiro. Aqui, não há a tensão e a monumentalidade das colunatas da Praça São Pedro de Bernini: a escala é doméstica, tátil e sutil. Ainda assim, a forma ovalada condiciona a experiência do visitante, propõe uma coreografia de descoberta e atenção. Também influenciam na experiência a sensação de caminhar por um chão de madeira elevado, o calor emitido pelas lâmpadas e o escurecimento súbito do ambiente.

Uma série de pinturas intitulada Lampejos completa a intervenção da artista no espaço. Cada uma é composta por um conjunto de folhas de um calendário litúrgico, com rezas e pensamentos espirituais impressos em papel fino. No entanto, este material não é facilmente reconhecível: sua superfície está quase toda velada, coberta por camadas de pigmento azul ou dourado. A pintura vela para preservar. A superfície velada protege e oculta o sagrado.

Na prática religiosa, o ato de cobrir ou fechar o que se considera precioso e especial é habitual. O véu na âmbula cobre a eucaristia. Relicários, ostensórios, sacrários, todos guardam algo que não se mostra de imediato. Aqui, o gesto de tampar ou fechar é também o de resguardar. Mas nestas superfícies há pequenas janelas abertas por onde algumas palavras se revelam: Magnificat, Mistério, Milagre, Manto, Mulher… São justamente lampejos, momentos de luz e revelação em meio à escuridão. Como estrelas num céu encoberto, essas palavras isoladas se destacam no plano denso e silencioso das pinturas, visíveis onde o azul ou o dourado já não cobrem o papel. Sua seleção é carregada de significado espiritual, e sua disposição estabelece um ritmo visual que convida à leitura pausada, íntima.

A cor e a matéria dessas veladuras também não são casuais. O azul remete ao manto da Virgem, um manto que abraça, protege, cuida e aquece os corpos. Uma arquitetura efêmera, feita de gesto humano, que tenta englobar todos e qualquer um. É o mesmo azul dos tetos estrelados da Capela degli Scrovegni, pintada por Giotto em Pádua, ou dos vitrais da Sainte-Chapelle de Paris, restaurados recentemente com precisão quase milagrosa. Já o dourado liga-se à tradição das iluminuras, ao ouro litúrgico, à própria luz. Ambas as cores, em sua materialidade simbólica, acentuam a tensão entre o que se mostra e o que permanece oculto.

A série se desdobra em diferentes escalas: há grandes telas verticais, obras médias e um pequeno políptico composto por doze pinturas em miniatura — objetos que cabem na mão e pedem aproximação —. Cada uma traz uma palavra, como se fossem peças de um oráculo, fragmentos de oração, pontos de luz em uma constelação.

Na obra de Manuela Costa Lima, o sagrado não é tratado como exceção ou transcendência, mas como presença imanente, possível, cotidiana. Um sol que aparece e brilha todos os dias para todos. A luz, aqui, é matéria e metáfora: energia, calor, espírito e alma. Está sempre disponível, mas depende de quem está aberto a se conectar. Como ela mesma diz: “A energia está dada de antemão, mas é preciso plugar.”

A exposição nos oferece, com delicadeza, uma experiência física e sensível daquilo que normalmente não se vê. Um espaço que é corpo, oferenda, pausa e silêncio para meditação.

Incline o rosto em direção ao sol. Feche os olhos. E veja.

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