Five to Nine

Thomaz Rosa

textos Marilia Garcia, Bruno Dunley e Anderson Godinho

23 de agosto – 20 de setembro 2025

São Paulo

Corra e olha o céu

 

Olhar as telas de Five to nine é como olhar janelas acesas de madrugada que guardam um brilho, que são um pedaço de coisa viva e que trazem também um enigma, uma pergunta, um pedaço de narrativa. O que é o céu? O que são essas nuvens? O que são os elementos que estão ao lado, em cima, embaixo? O que está em primeiro plano? O que são as formas, linhas, números, cores?

Céu de brigadeiro, céu enluarado, céu opaco, quase sumindo, coberto por nuvens: de matéria escura, agora clara, em constante movimento. Às vezes só cores: cor-de-rosa, chumbo, branco. Pedaços de céu? Céu da boca, cheio de palavras. Paisagem cortada, céu enquadrado. Pela mediação, pelo recorte dessas janelas tenho a impressão de que olhar para o céu aqui é uma forma de olhar para o tempo. 

Algumas coisas no céu vêm do passado: estrelas, nebulosas, luzes que piscam a anos-luz de distância. Também tem as coisas que projetamos no alto, sombras de outros tempos, pessoas que se foram e imaginamos estarem por lá. Por outro lado, o futuro desponta de cima, vindo com o sol, o mapa das estrelas que é navegação ou destino traçado, o céu que nos protege aponta os caminhos. 

Aqui um corte. Vi as obras do Thomaz Rosa numa manhã gelada e depois peguei a estrada. Estava dentro de uma bolha de tédio que parecia impedir qualquer ação, quando de repente meu olhar foi atraído pelas nuvens: um cachorro, um pote, um rosto, um pedaço de algodão se esfiapando. Nuvens passam, se transformam, engolem as formas. Fiquei como aquele estrangeiro de Baudelaire que não tem família, nem amigos, não quer a beleza nem o dinheiro, mas ama, mais do que tudo, as nuvens maravilhosas que passam lá longe… E o que elas trazem embutidas. 

Na volta da viagem vi os trabalhos outra vez e então lembrei de uma cena que tinha lido dias antes. E as coisas vão criando relações. E se transformando. Diante das ruínas de um castelo, em Heidelberg, Walter Benjamin olha para o céu, num dia límpido, e descreve uma espécie de tensão vendo o “espetáculo efêmero das nuvens” enquadrado pela “eternidade dos escombros”. Percebo essa tensão na obra do Thomaz Rosa, mas, em vez do contraste binário entre efêmero e eterno, o que parece estar em jogo aqui é uma lógica relacional que traz várias temporalidades e espelhamentos e faz comentários ao criar essas relações.

O céu nessas telas não vem só. Ele traz muita coisa embutida. Não só o tempo para frente e para trás, mas também o espaço e o enquadramento. A reversibilidade dos pontos de vista e a possibilidade de tomar desvios e contornos. Paisagem: pedaço de país que a vista alcança.

O que as obras do Thomaz Rosa parecem fazer é uma espécie de convite: “Corra e olhe o céu”. Um convite para desviar do chão, levantar a cabeça e ver. Ver o céu no que ele tem de infinito, de enigmático. No que ele tem de vivo e aberto. Olhar com nossos olhos, nosso recorte, e olhar de novo a cada dia e recriar as relações.

Quando não houver mais gente para olhar, o céu vai desabar.

Marilia Garcia

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