Na Beira do Arabesco

Beatriz Buendia, Clara Goldenstein, George Teles, Jesus José, João Balardin, Paulo Valeriano e Sara Costa

08 de novembro 2025 – 24 de janeiro 2026

São Paulo

Na Beira do Arabesco nasceu de um processo que entende o acompanhamento artístico como uma prática que ultrapassa o fazer curatorial, mas que também o alimenta — seja como método, gesto de escuta ou espaço de reflexão crítica sobre os modos de exibir.

Ainda no segundo semestre de 2025, durante um ciclo de encontros realizados com o grupo de artistas representados pela Quadra — processo que culminou na exposição A Conspiração dos Ícones, em colaboração com a Carpintaria (RJ) — comecei a reforçar a importância do estudo como aquilo que move a prática artística. Um campo que, de tempos em tempos, pode funcionar como bússola, orientando os caminhos que o fazer aponta.

Foi especialmente a partir das conversas com Thomaz Rosa, que à época completava pouco mais de dez anos de produção, que surgiu o desejo de analisar com mais profundidade certos elementos e recorrências que atravessam sua pesquisa — aspectos que, embora constantes, ainda não haviam sido nomeados. Esse exercício de atenção e demora deu origem, mais adiante, a uma investigação dedicada ao céu em sua obra, materializada na exposição Five to Nine. Um motivo tão familiar à história da pintura, mas que, em Thomaz, se revelou como espaço de fabulação, tesão e ruptura. O desejo de estudar essas recorrências acabou se tornando uma pesquisa sobre a própria ideia de estudo — sobre o ato de olhar demoradamente para algo, acompanhar o outro e permanecer junto no processo de elaboração de uma forma.

Na Beira do Arabesco se formou a partir dessa pergunta e desse impulso: reunir artistas em diferentes momentos de pesquisa — Beatriz Buendia, Clara Goldenstein, George Teles, Jesus José, João Balardin, Paulo Valeriano e Sara Costa — para pensar a pintura como campo de estudo, fabulação e atenção. Um espaço de convivência e partilha, de experimentação do tempo, mas também um modo de reafirmar a vocação da Quadra em acompanhar o desenvolvimento das pesquisas de cada artista como prática contínua, colaborativa e aberta ao risco.

O arabesco, com sua linha infinita, sustenta esse encontro. Ele se dobra e cria pausas que  permitem que a forma respire. É nesse intervalo que a pintura acontece — no gesto que hesita, na matéria que age, no corpo que escuta.

No projeto expositivo que encerra a programação da galeria em 2025, cada artista habita essa curva à sua maneira. Em Beatriz Buendia, o gesto é impulso e intuição — uma coreografia entre cor e matéria que só se anuncia depois do fazer. Clara Goldenstein evoca a memória como tecido e fabulação, atravessando o trânsito entre o Brasil e a República Tcheca. George Teles funde corpo e território, fazendo da paisagem uma respiração — um instante de pausa e descanso que inaugura a pintura em seu repertório. Jesus José pinta com a luz do escuro, um sol negro que ilumina o intervalo entre o ver e o não ver — um “agorinha” de situações fora do tempo, mas todas espraiadas na memória de Goiás. João Balardin transforma o cotidiano em cena, onde objetos e presenças testemunham o paradoxo entre o encontro e a melancolia. Paulo Valeriano faz da paisagem um lugar de desaparecimento, onde o olhar se dissolve entre o que resta e o que se apaga. Sara Costa, por fim, pinta lembranças em mutação: cores que emergem de um processo que a desloca do conforto da paisagem observada para situações noturnas, povoadas por rastros e ecos de uma memória que ainda insiste em acontecer.

Na Beira do Arabesco também retoma meu encontro de 2012 com a escritora cearense Flávia Memória, que em uma de nossas correspondências textuais escreveu: “Na beira do arabesco enrubesço lembrando daquilo que Murilo Mendes dizia: é nas asas do transistor que voa o áugure.” Transistor, dispositivo semicondutor usado para amplificar ou comutar sinais elétricos, atuando como amplificador de corrente ou interruptor eletrônico. Áugure, indivíduo que prediz o futuro, interpretando no voo e no canto das aves os desígnios dos deuses. Na Beira do Arabesco é, em suma, um exercício de continuidade e amplificação no corpo da matéria.

Tarcísio Almeida

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